Old Is Cool

Texto por Diego Suriadakis

Não sei quando, nem quem foi que disse. Talvez tenha lido em algum livro ou numa revista de atualidades. Dizia assim, que a vida é uma empresa. O dito, se considerado válido, nos transforma de imediato: passamos todos a empresários.                  Certamente. Em cada moleque que corre, dentro de um apertado apartamento ou ao largo da rua perigosa; em cada um que sonha, sentado na carteira da escola ou no banquinho do castigo – lugares que costumavam ser tão parecidos; num sítio da infância ou numa sala com ar-condicionado –, em cada um desses há um executivo a trabalhar.   Na empreitada da vida, o primeiro setor que desenvolvemos, aquele no qual apostamos as nossas primeiras fichas, é o setor de recursos humanos. Com o outro, aprendemos a especular, a valorizar nossas ações e atitudes. Atuar em grupo, para o bem do grupo. Mais uma ideia que, se tomada como válida, nos transforma de imediato: nos tornamos amigos.                                                                                                                                         Estes senhores engravatados que o leitor tem em mãos, voando em manobras sobre a mini-ramp, já trabalham juntos há mais de 15 anos. Lembram com alguma exatidão o dia no qual se conheceram e não fazem a menor ideia do que escolheram deixar para trás em suas jornadas.                                                                                                                         Explico-me: conversando com eles numa manhã nublada de Belo Horizonte, era difícil manter o assunto no tempo passado. O infeliz do repórter, ávido por datas, números e outros dados que se foram, se viu diversas vezes em meio a conversas da ordem do dia. Ao perguntar sobre o currículo de um, foi convidado pelo outro a ir à lanchonete da esquina tomar um açaí. Com granola, banana e um pouco de sorte, conseguiu anotar algumas coisas em seu bloquinho.                                                                                             Rua Conde Linhares, 916. Salão Conde de Linhares. Onze horas do sábado e Cléber Estevam, de 34 anos, de navalha na mão, finaliza um trabalho. Os outros que ali laboram já estão acostumados às manobras de Bicho. Assim é conhecido o skatista profissional da modalidade vertical, 10° colocado no Brasileiro de 2005 e campeão mundial em duplas – fazendo par com Daniel Soares, também mineiro – no Oi Vert Jam do Rio de Janeiro, em 2008.                                                                                                                                            Bicho ataca de videomaker e editor de imagens. Na televisão do salão, ligada à internet, vídeos de skate do Clube do Vert, um canal do YouTube que conta um pouco da história dos três engravatados e de outros skatistas brasileiros. Ele é também pai orgulhoso, e agora rolam na tela imagens de sua filhinha, de andador, tomando os primeiros ventos na DogQuintal, pista particular que Bicho fez, há mais de 10 anos, em sua casa. O cachorro, fazendo valer o nome, também ensaia algumas manobras.                                             Entram então no salão, à paisana, os outros dois executivos, Binha e Dota. Fim de semana, ternos guardados no armário, um vem de gorro e o outro com um contrabaixo às costas. Cleiber Alessandro, de 38, escondido no gorro, sorri com os olhos. Ele é skatista antes mesmo de ter imaginado a possibilidade de o skate existir. Criado numa fazenda em Diamantina, quando criança tirava dos coqueiros a capa dos cachos de coco – aquela parte que se assemelha a uma canoa –, e prazeroso mesmo era descer os morros de grama montado naquilo. Já estava decidida uma de suas empreitadas: rolar pelos declives.                                                                                                                                               É claro, virou adulto, tem uma empresa prestadora de serviços na área de informática, mas nunca largou o gosto pelas transições. Os skatistas do mundo inteiro agradecem. Binha é talentoso fazedor de pistas de skate. Saíram de suas mãos muitas das rampas montadas em campeonatos nacionais e internacionais.                                              Alexandre “Dota” Santos é o mais velho dos três. Quarenta e quatro anos, sujeito sério, de fala grave e diretiva. Ensaiaria com sua banda atual logo depois da nossa conversa. Ele, que começou a andar de skate em 1977, lembra da trabalheira que tiveram para poder dar um rolé. Tão simples para um garoto de hoje entrar numa loja, escolher um modelo, atual ou retrô, double deck ou old school, rodas duras ou macias, rolamentos suíços ou desmontáveis. Já eles tinham que desmontar patins, cortar pedaços de madeira, comprometer algum objeto da casa, levar alguma surra, e só então podiam experimentar a liberdade.                                                                                                                                      Tal ação surtiu efeito. Dota foi organizador de vários campeonatos pioneiros do esporte em Minas e criou três filhos sobre as rodinhas. Um não era lá muito partidário da pressão dos patrocínios e do clima das competições. Anda a lazer, mas virou músico. Outro é Jefferson Bill, desde pequeno abusado no carrinho, é um dos brasileiros que andam se destacando no cenário internacional do esporte. O mais novo é Hugão e adivinhem: músico e skatista. Dota fez escola em casa e abriu as portas do estabelecimento para a rua. É dele o liceu de skate Fun family.                                        “Nós é que fortalecemos a Confederação. Nós fazemos aquilo lá acontecer.” Dota interrompe a história na cabeça do repórter mais uma vez. Estava eu imerso noutros tempos, o cara me acorda de novo para a pauta do dia. Quando abri os olhos, estavam os três conferenciando os rumos do skate com fala preocupada e as empreitadas de cada um em tom de brincadeira.                                                                                                           Velhos companheiros, executivos experimentados nas políticas empresariais. Verdadeira corporação reunida para definir a data do próximo rolé.

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About carloshauck

Carlos Hauck, 30 anos, belo-horizontino e fotógrafo.
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One Response to Old Is Cool

  1. Barbara says:

    ótimas fotos

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